Pelo fim da tarde, o sol alaranjado estava para se por no horizonte, dois anjos chegaram ao portal da cidade de Sodoma. Estavam disfarçados como dois andarilhos, no entanto o que os entregavam eram as singulares belezas de seus rostos. Sodoma parecia estar dourada, sempre muito animada com cantorias – animada até demais para alguns moralistas. Lot, que estava sentado à porta da cidadela, aproximou dos dois forasteiros e ao perceber que não se tratavam de simples homens prostrou jogando o rosto ao chão.
– Meus senhores, venham… venham… vão até minha casa, não é tão longe daqui. Descansem e, por favor, passem a noite lá. Não será incomodo algum. Faço questão.
– De maneira alguma. É muita gentileza da sua parte, mas vamos passar a noite na praça mesmo. Muito obrigado.
– Mas, senhores… faço questão… o quê é isso? não… por favor.
Lot, cheio de trejeitos, insistiu tanto que acabou os convencendo para irem até a sua casa. Já estava no lusco-fusco… Lot pediu para sua esposa e filhas que preparem um banquete. “Esta noite teremos visitas!”. Cozeram pães a moda da casa, sem fermento. Teve música… todos comeram e beberam.
Acabou o pão e a bebida. Estavam todos da casa indo deitar quando os homens da cidade chegaram a porta de Lot. Eram jovens, adultos, velhos… toda a população masculina em peso estava ali. BAM! BAM! BAM! Bateram a porta. “LOT! EI LOT! LOT, ONDE ESTÃO OS HOMENS QUE ENTRARAM NA TUA CASA?”, gritaram. Nenhuma resposta. “LOT, PARA COM ISSO! ESTAMOS TODOS AQUI QUERENDO CONHECÊ-LOS!”. Lot, de pijama, caminhou até a porta. Eles continuaram a gritar do lado de fora. “VAMOS LÁ, VELHO, QUEREMOS ABUSAR DESSES HOMENS… SÃO BONITOS… TRAGA ELES AQUI PARA NOS DIVERTIMOS TODOS JUNTOS!”. Não estavam de piada. Um batalhão aguarda para avançar em cima dos forasteiros. Era muito amor para dar…
Lot saiu de casa e trancou a porta atrás de si, se espantou ao ver a quantidade de homens que estavam na frente da sua casa para molestar os pobres cavaleiros que estavam em sua casa. A situação era preocupante.
– Pelo amor de Deus, minha gente, não façam isso! Não comentam esse crime, eu os peço. Chega de pecado! Por favor… Vão dormir.
O povo tentou forçar a barra e Lot resolveu negociar com eles:
– Pessoal, calma! Calma! Como vocês sabem, tenho duas filhas ainda virgens… eu vou buscá-las, num segundo, e aí vocês fazem o que quiserem com elas. Mas por favor, não façam nada com estes cavaleiros que estão essa hora dormindo aqui em casa. Bom, vou buscá-las…
– Não queremos as meninas! – gritou um.
– É! Queremos os bonitões! – disse outro.
A turba não estava para gozações. Lot viu que estava encrencado até o pescoço. Forçaram mais uma vez a entrada. “Saí daí!”, gritaram. Tentou se agarrou na soleira da porta fazendo força para ninguém invadir. Lot contra todos…
– Não vai cooperar? Então vamos pegar o Lot também pessoal! – A gritaria tomo a noite.
Empurraram Lot com força que quase partiu seu corpo ao meio. A porta se abriu e os dois andarilhos puxaram Lot para dentro e um deles jogou uma poeira cegando a todos que tentavam invadir. “AARGH! MEU OLHO!”.
– Tem ainda família aqui? Se os ama, façam todos abandonarem a cidade, imediatamente – ordenou um dos andarilhos – Porque, hoje, vamos destruir isso daqui. Sodoma vai para os ares!
– É, vimos que aqui os habitantes aqui não exclamam perante o Senhor… Pederastas imundos! Vamos exterminar todos os cidadãos! Então… Lot, trate de correr e avisá-los. Vá!
Lot correu feito louco para avisar seus parentes, genros, filhas enquanto os dois homens preparavam suas munições. “Vamos! Levante, saí que o Senhor vai destruir Sodoma hoje! Não vai ser nada bonito ficar aqui”. Os genros achavam que ele estava pirado… Sem nenhuma credibilidade, não sabia mais o que fazer Lot correu de um lado a outro. A alvorada estava se aproximando e ambos os forasteiros estavam com suas munições a postos para fazer o rebuliço na cidade. Um deles de aproximou de Lot e como a mão em seu ombro:
– Está na hora. Pegue sua mulher e as suas duas filhas e vão. Ouviu bem? Vão! Elas não merecem morrer, não nessa cidade imunda! Agora vão!
Correram como cães fugindo de bengaladas no meio da noite. Um dos viajantes ainda gritou para eles:
– CORRAM, SE QUEREM SALVAR SUAS VIDAS! NÃO OLHEM PARA TRÁS E NÃO PAREM NA PLANÍCIE, VÃO PARA AS MONTANHAS! CORRAM! CORRAM!
Os dois viajantes começaram o massacre. Bombas para todos os lados. Fizeram chover pedaços humanos. Não estavam para brincadeira. A destruição de Sodoma começará. Não iam deixar nada que respirasse vivo… não ia ficar nada em pé.
– Ó, Senhor, estou venho demais para correr! – Orava Lot enquanto corria – Ó, Senhor, obrigado pela bondade de manter-nos vivos pela Sua graça… mas acho que não conseguirei chegar até as montanhas, estamos muito cansado de correr, podemos ficar na cidade mais próxima?… ela é pequena… podemos nos refugiar nela… ó, Senhor…
Uma voz trovejante respondeu:
– Concederei a você e aos seus mais essa graça. Mas sejam rápidos, nada poderei fazer se pararem de correr. Depois vão para as montanhas, lá estarão bem seguros.
Já estava amanhecendo quando Lot e sua família chegaram na pequena cidade de Segor. Dos céus, caiu uma chuva de enxofre e fogo… Apagando Sodoma do mapa, devastando tudo que era vida… vegetação ficou como fósforos riscados. A esposa tentou olhar para a sua cidade natal e foi atingida pela ira… caiu como um saco de sal se desmanchando no chão. Ninguém lamentou por sua morte.
Não passarem nem um dia em Segor e foram se estabelecer nas montanhas. Apenas Lot e as filhas. Encontram um confortável caverna onde poderia passar as noites frias do inverno e os dias quentes do verão. Em apenas uma semana os três fizeram da caverna uma digna moradia. Preparam uma cozinha completa. Ali perto passaram a cultivar hortaliças.
A filha mais velha passou andar pelos cantos preocupada. Não havia mais nenhum homem por perto, como unir se com outro homem? Isso a deixava subindo pelas paredes. Ruminava em pensamentos. Até que uma noite, não se aquentando abriu-se para a irmã:
– Não há homem algum por perto para que possamos nos unir com eles… para que possamos asseguras a posteridade, minha irmã. Pois… é natural que devemos nos unir a um, mas… não tem nenhum. Nenhunzinho! Bom… a não ser… é! Tem o papai! Ele pode nos dar filhos! Sim!
As irmã olharam o velho longe, na cuidado das hortaliças… Não era o homem ideal, mas Lot era um homem lindo, aos olhos delas é clara… ah! o amor paternal que nunca se extingue… As irmãs traçaram juntas um plano para terem seus filhos. Não contaram nada ao seu pai com receio da sua reação. Resolveram fazer uma festa familiar e preparam galões e galões de vinho. A ideia, se perceberam, era bem simples: embebedá-lo e assim terei noites de volúpias e desejos.
Na noite da festa beberam bastante vinho. Lot ficou, depois de dois galões, de pileque. Assim que perceberam o estado alcoólico de seu pai correram para trocar. Ambas se desfarsaram como odaliscas, bem provocantes… fizeram um show sensual para seu pai, com direito a lap dance. Ficou louco com aquilo, quis morder seus traseiros. Lot babava quando fizeram um strip-tease.
Beijaram e amaram seu pai a noite inteira… Agarrava os seios de uma e varava a outra… trocava… para lá e para cá… de cima para baixo ou de baixo para cima… Contorcionismos no antigo oriente. Braços que roscavam em torsos, pernas que roscavam… Luxária… suor… sexo… Lubrificações e alcoolismo. O cânticos dos cânticos… oh! prazer de preservar a posteridade! Lot tombou saciado. Sua filhas voltaram para o seus aposentos.
No dia seguinte ninguém tocou no assunto, como se nada tivesse acontecido. Lot às vezes queria tocar no assunto, mas logo desistia… via que não tinha motivos para falar nada. Melhor é deixar as coisas como estão. Tanto que quando as barrigas estavam em evidência não se houve um único comentário. Fizeram se de sonsos… E assim, nasceram Moab e Ben-Ami. Mas isso não importa ou importa? Se fica a dúvida no ar… houveram mais festas regadas a vinho?
R. Velasquez
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* Uma releitura de Gênesis 19:1-38.
