olhos de ressaca

– Capitu, eu te amo!

– Hm… também te amo, Bentinho – Num tom de quase desânimo.

– Amo tudo em ti. Esses seus olhos de ressaca…

– Pode parar! O que têm meus olhos de ressaca? Vem agora com essa para cima de mim?! Só porque fiquei bebendo com Escobar?!

– Capitu!

R. Velasquez

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maria, a virgem

Maria casou virgem com José. Ele, homem casto e muito trabalhador, não tocou um dedo na mulher, preservando assim a sua candura. Numa noite de março ela sonhou com um anjo… cheio de revelações. Nada contou do sonho, reservando para si. Com o tempo, um dia estranhou… Observou o atraso da menstruação. E não vinha de modo algum. Pelo sim, pelo não, fez os exames que confirmaram as suspeitas: estava grávida.

– E agora – se questionava de um lado à outro – O que vou dizer pro José, que estou grávida e, ainda por cima, do espí-ri-to san-to?!

R. Velasquez

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adeus sodoma!*

Pelo fim da tarde, o sol alaranjado estava para se por no horizonte, dois anjos chegaram ao portal da cidade de Sodoma. Estavam disfarçados como dois andarilhos, no entanto o que os entregavam eram as singulares belezas de seus rostos. Sodoma parecia estar dourada, sempre muito animada com cantorias – animada até demais para alguns moralistas. Lot, que estava sentado à porta da cidadela, aproximou dos dois forasteiros e ao perceber que não se tratavam de simples homens prostrou jogando o rosto ao chão.

– Meus senhores, venham… venham… vão até minha casa, não é tão longe daqui.  Descansem e, por favor, passem a noite lá. Não será incomodo algum. Faço questão.

– De maneira alguma. É muita gentileza da sua parte, mas vamos passar a noite na praça mesmo. Muito obrigado.

– Mas, senhores… faço questão… o quê é isso? não… por favor.

Lot, cheio de trejeitos, insistiu tanto que acabou os convencendo para irem até a sua casa. Já estava no lusco-fusco… Lot pediu para sua esposa e filhas que preparem um banquete. “Esta noite teremos visitas!”. Cozeram pães a moda da casa, sem fermento. Teve música… todos comeram e beberam.

Acabou o pão e a bebida. Estavam todos da casa indo deitar quando os homens da cidade chegaram a porta de Lot. Eram jovens, adultos, velhos… toda a população masculina em peso estava ali. BAM! BAM! BAM! Bateram a porta. “LOT! EI LOT! LOT, ONDE ESTÃO OS HOMENS QUE ENTRARAM NA TUA CASA?”, gritaram. Nenhuma resposta. “LOT, PARA COM ISSO! ESTAMOS TODOS AQUI QUERENDO CONHECÊ-LOS!”. Lot, de pijama, caminhou até a porta. Eles continuaram a gritar do lado de fora. “VAMOS LÁ, VELHO, QUEREMOS ABUSAR DESSES HOMENS… SÃO BONITOS… TRAGA ELES AQUI PARA NOS DIVERTIMOS TODOS JUNTOS!”. Não estavam de piada. Um batalhão aguarda para avançar em cima dos forasteiros. Era muito amor para dar…

Lot saiu de casa e trancou a porta atrás de si, se espantou ao ver a quantidade de homens que estavam na frente da sua casa para molestar os pobres cavaleiros que estavam em sua casa. A situação era preocupante.

– Pelo amor de Deus, minha gente, não façam isso! Não comentam esse crime, eu os peço. Chega de pecado! Por favor… Vão dormir.

O povo tentou forçar a barra e Lot resolveu negociar com eles:

– Pessoal, calma! Calma! Como vocês sabem, tenho duas filhas ainda virgens… eu vou buscá-las, num segundo, e aí vocês fazem o que quiserem com elas. Mas por favor, não façam nada com estes cavaleiros que estão essa hora dormindo aqui em casa. Bom, vou buscá-las…

– Não queremos as meninas! – gritou um.

– É! Queremos os bonitões! – disse outro.

A turba não estava para gozações. Lot viu que estava encrencado até o pescoço. Forçaram mais uma vez a entrada. “Saí daí!”, gritaram. Tentou se agarrou na soleira da porta fazendo força para ninguém invadir. Lot contra todos…

– Não vai cooperar? Então vamos pegar o Lot também pessoal! – A gritaria tomo a noite.

Empurraram Lot com força que quase partiu seu corpo ao meio. A porta se abriu e os dois andarilhos puxaram Lot para dentro e um deles jogou uma poeira cegando a todos que tentavam invadir. “AARGH! MEU OLHO!”.

– Tem ainda família aqui? Se os ama, façam todos abandonarem a cidade, imediatamente – ordenou um dos andarilhos – Porque, hoje, vamos destruir isso daqui. Sodoma vai para os ares!

– É, vimos que aqui os habitantes aqui não exclamam perante o Senhor… Pederastas imundos! Vamos exterminar todos os cidadãos! Então… Lot, trate de correr e avisá-los. Vá!

Lot correu feito louco para avisar seus parentes, genros, filhas enquanto os dois homens preparavam suas munições. “Vamos! Levante, saí que o Senhor vai destruir Sodoma hoje! Não vai ser nada bonito ficar aqui”. Os genros achavam que ele estava pirado… Sem nenhuma credibilidade, não sabia mais o que fazer Lot correu de um lado a outro. A alvorada estava se aproximando e ambos os forasteiros estavam com suas munições a postos para fazer o rebuliço na cidade. Um deles de aproximou de Lot e como a mão em seu ombro:

– Está na hora. Pegue sua mulher e as suas duas filhas e vão. Ouviu bem? Vão! Elas não merecem morrer, não nessa cidade imunda!  Agora vão!

Correram como cães fugindo de bengaladas no meio da noite. Um dos viajantes ainda gritou para eles:

– CORRAM, SE QUEREM SALVAR SUAS VIDAS! NÃO OLHEM PARA TRÁS E NÃO PAREM NA PLANÍCIE, VÃO PARA AS MONTANHAS! CORRAM! CORRAM!

Os dois viajantes começaram o massacre. Bombas para todos os lados. Fizeram chover pedaços humanos. Não estavam para brincadeira. A destruição de Sodoma começará. Não iam deixar nada que respirasse vivo… não ia ficar nada em pé.

– Ó, Senhor, estou venho demais para correr! – Orava Lot enquanto corria – Ó, Senhor, obrigado pela bondade de manter-nos vivos pela Sua graça… mas acho que não conseguirei chegar até as montanhas, estamos muito cansado de correr, podemos ficar na cidade mais próxima?… ela é pequena… podemos nos refugiar nela… ó, Senhor…

Uma voz trovejante respondeu:

– Concederei a você e aos seus mais essa graça. Mas sejam rápidos, nada poderei fazer se pararem de correr. Depois vão para as montanhas, lá estarão bem seguros.

Já estava amanhecendo quando Lot e sua família chegaram na pequena cidade de Segor. Dos céus, caiu uma chuva de enxofre e fogo… Apagando Sodoma do mapa, devastando tudo que era vida… vegetação ficou como fósforos riscados. A esposa tentou olhar para a sua cidade natal e foi atingida pela ira… caiu como um saco de sal se desmanchando no chão. Ninguém lamentou por sua morte.

Não passarem nem um dia em Segor e foram se estabelecer nas montanhas. Apenas Lot e as filhas. Encontram um confortável caverna onde poderia passar as noites frias do inverno e os dias quentes do verão. Em apenas uma semana os três fizeram da caverna uma digna moradia. Preparam uma cozinha completa. Ali perto passaram a cultivar hortaliças.

A filha mais velha passou andar pelos cantos preocupada. Não havia mais nenhum homem por perto, como unir se com outro homem? Isso a deixava subindo pelas paredes. Ruminava em pensamentos. Até que uma noite, não se aquentando abriu-se para a irmã:

– Não há homem algum por perto para que possamos nos unir com eles… para que possamos asseguras a posteridade, minha irmã. Pois… é natural que devemos nos unir a um, mas… não tem nenhum. Nenhunzinho! Bom… a não ser… é! Tem o papai! Ele pode nos dar filhos! Sim!

As irmã olharam o velho longe, na cuidado das hortaliças… Não era o homem ideal, mas Lot era um homem lindo, aos olhos delas é clara… ah! o amor paternal que nunca se extingue… As irmãs traçaram juntas um plano para terem seus filhos. Não contaram nada ao seu pai com receio da sua reação. Resolveram fazer uma festa familiar e preparam galões e galões de vinho. A ideia, se perceberam, era bem simples: embebedá-lo e assim terei noites de volúpias e desejos.

Na noite da festa beberam bastante vinho. Lot ficou, depois de dois galões, de pileque. Assim que perceberam o estado alcoólico de seu pai correram para trocar. Ambas se desfarsaram como odaliscas, bem provocantes… fizeram um show sensual para seu pai, com direito a lap dance. Ficou louco com aquilo, quis morder seus traseiros. Lot babava quando fizeram um strip-tease.

Beijaram e amaram seu pai a noite inteira… Agarrava os seios de uma e varava a outra… trocava… para lá e para cá… de cima para baixo ou de baixo para cima… Contorcionismos no antigo oriente. Braços que roscavam em torsos, pernas que roscavam…  Luxária… suor… sexo… Lubrificações e alcoolismo. O cânticos dos cânticos… oh! prazer de preservar  a posteridade! Lot tombou saciado. Sua filhas voltaram para o seus aposentos.

No dia seguinte ninguém tocou no assunto, como se nada tivesse acontecido. Lot às vezes queria tocar no assunto, mas logo desistia… via que não tinha motivos para falar nada. Melhor é deixar as coisas como estão. Tanto que quando as barrigas estavam em evidência não se houve um único comentário. Fizeram se de sonsos…  E assim, nasceram Moab e Ben-Ami. Mas isso não importa ou importa? Se fica a dúvida no ar… houveram mais festas regadas a vinho?

R. Velasquez

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* Uma releitura de Gênesis 19:1-38.

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férias acampando, traumas e outras delícias [parte IV de IV]

Escuto o zíper da barraca abrindo. Era a Ana. Estava de camisola rosada e avançava para cima de mim. Eu era vítima dos seus beijos desesperados. Segurava meu queixo e enfiava a língua na minha boca… sufocante. Apertava firme a bunda dela pelo prazer pervertido de sentir o corpo colado ao meu… lambíamos um ao outro, com dois gatinhos. Nos despedíamos, pouco a pouco, das roupas. Tchau camisola… tchau short…. adeus calcinha… Penetrava firme, rijo… ah! Ela pulava… cavalgava em cima de mim… Cavalo sem cela! Troca: minha vez de ficar por cima… surrando o útero, firme. Transávamos como dois selvagens… Os bons selvagens de Jean-Jacques Rousseau. Oh, não, vou gozar! Coloquei o peitinho todo na boca. Olhei para Ana e… Deus! Ela estava com o rosto do Pato Donald! PA-TO DO-NAL… Acordei suando em bicas.

O sonho estava melhor que a realidade, mesmo que seja com a cara do Pato Donald. Aliás, os sonhos são sempre melhores que a vida que se vive. A vida é triste. Saí da barraca e dei de cara com a Rúbia. Ela estava de biquíni. Não era um corpo bonito, mas eu estava excitado por causa do sonho. Ela notou o volume no meu short… estava bem visível. Senti um suave impulso de pular em cima dela para saciar minha vontade. Sentei ao seu lado e comi pão com manteiga e bebi mate. Foi gentil comigo cortando mais um pão, passou manteiga e colocou algumas fatias de queijo. “Dormiu bem?”, perguntou. Respondi que sim. “Me leva até o poço da Coruja? Sua mãe disse que você sabe o caminho para lá”. Tudo bem, vou vestir a sunga e vamos. Onde estava a Ana? “A Ana está indo para a rodoviária. Já partiu. Amanhã ela tem um exame para prestar”, explicou.

Minhas chances com a Ana estavam definitivamente complicadas. Nada estava dando certo. Se tem alguém lá em cima, não estava fazendo nada para me ajudar. Tudo bem… Todos tinham saído, não perguntei para onde foram. Tanto faz. Vesti minha sunga e pus a bermuda e levei a Rúbia para conhecer o poço da Coruja. Não era muito longe da onde estávamos e o caminho nem era muito complicado… acontece é quem ninguém sabe onde é a entrada da trilha.

A Rúbia ficavam falando um monte de bobagens pelo caminho. Perguntava se eu estava namorando… se já tinha transado com alguma garota. Eu nem sequer havia dado meu primeiro beijo na boca, mas isso ela não precisava saber. Sempre fui orgulhoso. Limitava a responder apenas que elas é que não valiam nada. Ponto final. E ela continuava falando um monte. Eu fui o primeiro garoto da classe a usar óculos, tinha os incisivos centrais para trás e o primeiro a ter espinha. As garotas não se aproximavam. Eu era um alienígena para as meninas. O esquisitão. Só as garotas dos anos superiores me achavam uma gracinha, menos quando eu sorria. Então, para que insistir nisso? A Rúbia me torturava. Ela falando sacanagens fazia com que pensasse em sexo, inevitável. Mesmo sendo virgem eu sabia muito de sexo, aprendi tudo com a pornografia das revistas e nos filmes. Era bem instruído nesse assunto.

O poço da Coruja não era dos mais bonitos. Não tinha nada demais. Era um pouco mais escuro que os demais e quase ninguém ia ali. Como já que estávamos ali então era melhor aproveitar. Ajudei a entrar na água. Ela ficou mergulhando o rosto na água. Tinha uma pequena queda d’água. Ela escorregava e não conseguia chegar lá. Prestativo, tentei ajudar. Nessa de puxá-la, não sei se foi por querer ou não, mas ela passou a mão no meu pau. Bom, como estava ainda com a cabeça cheia de imagens eróticas, adivinhem só como eu estava… “Hm! Que pau enorme! Deve fazer o maior sucesso com as menininhas, heim?”. Nem… você gosta? Ela passou a mão nele outra vez. “Posso?”, masturbando. Fechei os olhos, era bom demais aquilo.

Encostei na pedra. Ela sugeriu que eu subisse um pouco para cima. Aproveitou e pôs a boca… ela foi com tudo, gulosa! Não era necessariamente quem desejava, mas foi ótimo. Eu que desejava tanto a filha estava me satisfazendo com a fonte, era como se parte da Ana estivesse ali. São momentos como estes que pensamos que Deus realmente escreve em linhas tortas, mas não tão certo. Era como andar nas nuvens. Tirou a boca, “foi só um presentinho”. Eu queria mais, mas ela estava decidida. “Fica só entre nós, tá?”. Insisti, é muito bom isso. Ela foi solícita.

Achei engraçado depois disso, de voltas às barracas, todo mundo reunido para jantar. A Rúbia me elogiava para mamãe dizendo que eu seria um homaço. Cu-de-cobra e Jaime ficavam fazendo suas serenatas de puns. Olhava para eles e sorria, não achava graça do que faziam. Eles devia se achar engraçado, mas eu sorria com um sorriso de filha da puta. Ganhei um boquete da mulher de um e mãe do outro. Não tinha como não sorrir.

Continuei explorando o rio sozinho, me sentia o máximo. Mesmo sabendo que havia recebido sexo oral com uma mulher com a mesma idade da minha mãe. Isso me deu esperanças… esperanças de encontrar com a Ana e ficar… E de continuar sofrendo felações.
Mais hora menos hora tudo acaba, até o acampamento. Era hora de arrumar as coisas, colocar tudo dentro das bolsas e guardar no carro. Desarmar as barracas. Não gostava de desmontar. Além de ser cansativo, desmontar me fazia pensar na escola, nos colegas do condomínio, na cidade… não queria voltar… não… Eu me sentia bem e até feliz por estar ali, mesmo solitário… Não tem remédio ou arrumava tudo ou meu pai me batia.

Frequentemente dormia o caminha quase inteiro no de volta. Mamãe era quem mais dormia, chegava a babar. Eu olhava pelo retrovisor e via meus momentos de alegria ficando cada vez mais para trás… até perder de vista. Não veria mais a Ana, talvez na próxima vez, mas não era certo. Nada era garantido.

Os fios de alta tensão dançam sobre nossa cabeça. A mancha cinza civilização se aproximava. Sentia-se pela fuligem. A cidade se tornava algo estranho. Tinha sensações de que as coisas haviam mudado no pedaço e que devia aprender as novas regras bem depressa, novas maneiras… tudo era, e ainda é, hostil. Não havia lugar para sonhos, exceto na cama. Voltar para as aulas… Voltar a uma vida sem expedições… sem a Ana… sem nada… Nos jornais nenhuma notícia sobre a morte do Papa.

R. Velasquez

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férias acampando, traumas e outras delícias [parte III de IV]

Conforme ia crescendo fazer amizades se tornava mais parco. Como se o passar dos anos tornasse mais difícil me entrosar com as pessoas. Nunca soube o que fazer realmente para me aproximar. Minha irmã sabia fazer aquilo, mas não eu. Não dava para chegar “Oi, eu sou o Rafael. E aí, vamos jogar bola?” pelo simples fato de ser desastre em qualquer esporte que envolva mais de duas pessoas. Além de soar ridículo. Ninguém quer jogar com alguém que perde sempre. É chato. Esse era eu. Um perdedor. Com o tempo eu não fazia tanto questão da obrigatoriedade de conhecer alguém… de fazer colegas… Tanto faz.

De qualquer modo sempre que papai chamava o amigo dele, não tinha para onde fugir, e lá ia eu ganhar a companhia do Jaime. O garoto continuava a mesma mala bobona, ao menos parou de querer manjar a pemba dos outros. O bom de irem é que às vezes a Ana ia. Ficava chateado quando ela não comparecia. Quando não ia era para ficar com algum namorado. Sofria na alma saber isto. Quando ia… Ah! Tudo ficava diferente. O tempo fazia maravilhas com a Ana. Continuava sensacional!

Não havia notado, mas eu estava me tornando um homenzinho e a Ana parecia notar, me reparava com novos olhos. Passamos a conversar mais, não muito, porém com mais freqüência que anteriormente. Enquanto ela falava reparava em todos os detalhes na sua boca, tinha um dente tortinho. Ficava doido para beijar os lábios dela, sempre brilhantes… sempre molhadinhos. Queria fazer tudo que havia treinado com o travesseiro. Seria de dar inveja em qualquer filme pornô.

Quando a conversa estava se desenvolvendo, era impressionante, chegavam uns playboys sarados se exibindo, parecendo gorilas no zoológico. Batia no peito e gritavam. Eles conseguem estragar tudo sem a menor cerimônia. Fazem tudo pelo prazer filha da puta de empatar a vida alheia. Sacanagem. E quando não eram eles era o Lino e o Jaime que vinham aporrinhar. Que o passarinho amarelo do azar defecou na minha cabeça eu não tenho dúvidas!

Aproveitava quando papai me levava para a cidade comprar comida para então traçar mentalmente estratagemas para conseguir ficar com aquela garota. Eu tinha que conseguir nem que seja um beijo! Ficava tenso de suar só em cogitar em fazer aquilo tudo já tinha feito com ela nos meus devaneios masturbatórios. Preparava os galanteios… treinava a mordida nos lábios… a espremidinha de olhos. Meu pai pedia para prestar atenção com o carrinho de compras, atropelei o pé dele no mercado. O romantismo imbecil tomava conta de mim. Estava possuindo. Ficava em transe por causa dela. Maldita!

Papai era implacável nos seus comentários. De não deixar pedra sobre pedra. Não era necessário que ele ficasse invocado com alguém ou não ir para cara para destruir a imagem de alguém para mim. Começava “Leci? Aquela boca de cu?”, era impagável! Nesse dia o pai estava puto da viva com o Lino e com a Rúbia, evidentemente. E voltei para o camping com ele reclamando. Eles estavam duros e não coçavam o bolso para ajudar nas compras da comida. E ele reclamava, “Esse cu-de-cobra – era assim que ele se referiria ao Lino – é um babaca!”. Olhava para mim e continuava as pedradas. “Essa mulher dele, porra!, é uma doente, mulher interesseira… vagabunda! Vem cheia de papo… mentirosa do caralho! Fica inventado história… só tua mãe para cair nas asneiras dela… sei lá… parecem que não tem merda nenhuma na cabeça!”.

Que se explodam os dois, o que me interessava era a Ana. Somente. Bom, também me interessava encontrar o banheiro limpo quando estava com dor de barriga, mas isso não vem ao caso. Tudo que eu queria era chegar no camping levar a Ana para passear e abrir meu coração. Ia me arriscar. Teria dela meu primeiro beijo… Mas do que adiantava pensar nela se do meu lado estava o pai? E ele continuava falando! “Presta atenção, do jeito que essa mulher é maluca vai querer que a filha dela transe com você… Já vi tudo!… vai arrumar uma barriga para ter prender… vai ser um inferno, estou vendo… essas mulheres são interesseiras para cacete!… E você viu como a Ana está magra? Parece até pegou AIDS. Você tem que arruma uma menina direitinha… Não essas pururucas… Hoje em dia é difícil achar uma garota decente… essas porras não valem a merda que cagam. O mundo tá perdido mesmo. Não tem jeito!”. Todos os meus sonhos estavam escorrendo pelo ralo da amargura. O que era colorido desbotou.

Eu tentava, mas não conseguia olhar para Ana e ficar sem pensar na AIDS. Mil pragas! Papai envenenou meus sonhos… Quando chegamos não fui encontrar com ela como estava planejando, nem procurei. Aquilo arrasou comigo. De fato ela estava mais magra, mas não era para tanto. Como não tinha amigos vagava sem direção. E se ele estivesse certo? Essa dúvida me corroia. Fui para cachoeira, precisava meditar e chegar as minha próprias conclusões. Afinal de contas a vida é minha.

O pai fala um monte de besteira. Na certa estava de cabeça quente. Para ele ninguém era perfeito o suficiente, nem a minha mãe! E olha que ele casou com ela. Era hora de voltar, a noite já estava caindo. Quando cheguei nas barracas estavam todos já comendo. A Ana tinha saído. Era hábito no camping ir ao pavilhão de noite. Para ser franco, não tinha outro lugar para ir, era o único lugar com luz. Famílias se reunião para jogar baralho, ping-pong… Ficava cheio de crianças ranhetas. De adolescente imprestáveis. E lá ia eu. Ficava dois minutos, eu não falava com ninguém e ninguém vinha falar comigo, fui embora.

Outro lugar que poderia ir era na Cida, que fica fora do camping. Cida era o nome da proprietária de um mercadinho meio boteco meio restaurante. Impossível definir o era. Um híbrido. Tinha que subir vinte e cinco minutos de estrada de terra para chegar. Era só ela e o marido. Lá também não tinha muita coisa para fazer, quem ia para lá era para comer e beber. A Cida fazia uns doces muito bons, eu adorava os seus bolos. Cheguei lá a Ana não estava. Meus pais estavam lá. Meu pai ficava encarnando no Lino que ficava como um moleque tentando se defender. A Rúbia falava de estupro. Onde ela ia era estuprada por vendedores de loja de departamento, motorista de ônibus, açougueiro, domador de cachorro… Ela sozinha aumentava as estatísticas de estupros do Rio de Janeiro. Era só papo, isso tudo era valorizar a vagina… a que ponto as pessoas chegam, né? Estava chato demais aquilo, tomei algumas cervejas por conta dos dois e desci outra vez, para o pavilhão!

As luzes do pavilhão haviam sido apagadas. Já passava das nove horas. Fiquei lá assim mesmo. Com as luzes apagadas só ficavam os jovens e adolescentes. Falando merda, claro. Minha irmã estava lá rodeada de amigos sentados em cima da mesa. Nem me deu bola. Sentei num canto. Naquela solidão a idéia de acender um cigarro não era nada ruim, pena que não fumasse. Das trevas da escuridão veio surgiu uma menina. Sentou bem próximo de mim, talvez não tivesse me visto. Eu queria ir embora, mas acabei puxando assunto com ela… não sei com foi, mas foi natural. Ela me deu atenção. Era uma garota bacana.

A conversa se deu em ritmo lento. Falamos um pouco mal das pessoas que estavam ali. Mas ela parecia gostar de estar onde estar, encantada com as coisas. O nome dela era Caroline, se não for passa ser agora. Bonita. Um tantinho mais baixa que eu. Não era um mulherão como a Ana, era mais garota. Uma fofa. Comecei a me sentir atraído, a conversa logo ia nos levar ao beijo. Já estávamos bem próximo. Segurar na mão… devagar aproximando o rosto… o beijo… ataque das línguas. Tudo isso é perfeito na imaginação. Quando estava realmente acontecendo… RAFAEL!!! Seria eu o soldado que de apunhalou o coração de Jesus? Pois vejam só, nessa hora eu passei a existir para minha irmã e para os seus amigos.

Caroline foi a primeira a levantar e ir para perto deles. Também fui, mas relutante. Até na solidão as pessoas destroem nossas pequenas alegrias. Não há lugar seguro nesse mundo.

Nós sentamos com eles em cima mesa. Falavam quaisquer disparidades, conversas com o propósito de falar de mal de alguém ou sobre baboseiras televisivas. Resolvi então fazer o que faço de melhor, falar merda. E sou extremista, para mim quanto mais babaca melhor. Sei que isso faz as pessoas se afastarem de mim, mas quando começo é difícil parar. Caroline arregalava os olhos para mim. Devia me ver como um monstro. Contei todas as piadas racistas, anti-semitas, machistas e sem-graças que sabia. Nem contei bem. Garganhei sozinho.

Não demorou muito e a Caroline foi embora, alegou que estava com sono. Senti mal com aquilo… Por causa das pessoas eu boicotava… me boicotava, denegria minha própria imagem. Ela ia desaparecendo na noite e tudo ficava sem propósito. Até pensei em correr atrás dela, mas para que? Pulei da mesa e fui embora. Havia dado meu show, não tinha mais nada para fazer ali. Boa noite caras.

(…)

R. Velasquez

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férias acampando, traumas e outras delícias [parte II de IV]

Lembro de certa vez descer até o Poço das Esmeraldas com a Ana, o Jaime foi com a gente a tiracolo. Como era mais astuto no caminho ajudava a Ana descer as partes mais íngremes. Ela se agarrava em mim e morria cada vez que sentia o cheiro do seu cabelo… da sua pele… Macia… O Jaime que se fodesse pelo caminho. Nem me importava que caísse e rachasse a cabeça ao meio. Tudo que importava era chegar ao poço e ver a Ana tirar a tanga. A bunda dela era como ver estrelas ao meio dia. Não é brincadeira não. Registrava cada movimento como um cinematógrafo para mais tarde. Não queria perder nenhum pedacinho. Ela mergulhava e eu ficava vidrado!

Sempre nadei muito bem. Como podem perceber, nunca morri afogado. A Ana queria chegar onde tinha uma pequena cachoeira. No entanto com a força da correnteza ela não conseguia chegar nem perto. Mostrei para ela que eu conseguia sem muitas dificuldades. Segurou firme em mim… Esmagando aqueles peitinhos nas minhas costas… As pernas se roçando nas minhas… Puro delírio! Ficava mais difícil chegar até lá com o peso nas costas. Mas quando cheguei ela escorregou. Segurei o braço dela e me apoiando nas pedras com as pernas, a puxei para cima de mim. Roçava o corpo inteiro no meu. Senti aquele traseiro passando no meu colo. Já estava bem envergado! Senti o volume dos pelinhos pubianos esfregando na minha mão. Trouxe para a cachoeira, mas acabei me desconcentrando e fui levando pela correnteza…

Um dia apareceu no camping um paulista, da nossa idade. Não recordo o seu nome, suponhamos que seja Túlio. Túlio era fora de série. Diferente do Jaime adorava falar sacanagem. Nós logo nos entendemos. Ela tinha uma revista pornô recheada de fotos de depravações bizarríssimas! Mulheres amarradas sendo surradas… mulheres mijando em cima de outras… Tinha até mulheres cagando na boca de outra. Vomitávamos vendo isso. Era asqueroso demais, mas víamos até o fim. Muita coragem!

Então Túlio organizou uma guerra de pinhos. Arrumou mais umas crianças para participar. Cinco de cada lado. Ele subiu numa pedra enorme e me chamou, seria ali nosso forte. Lá em cima éramos alvos certos. O que era pior é que tínhamos que descer toda hora para pegar mais munição e… ZUP! Um pinho passou raspando minha orelha. TÁU! Acertaram bem na minha testa. Olhei para trás e Túlio estava desviando de todos os tiros que davam na sua direção. Era de admirar. Abaixou as calças e mostrou a bunda. “Vocês não me acertam!”. TÔU! Foi em cheio no rabo dele. Deu um urro. Acertaram logo um pinho espinhento. Arranhou feio o traseiro.

Não parava de voar pinhos sobre nossas cabeças. Estávamos com a batalha perdida, nossos companheiros haviam desaparecidos, era o nosso fim. Rolei a pedra tentando salvar minha vida das rajadas… Estatelei todo no chão. Catei todos os pinhos que estavam no chão e corri atirando em qualquer um que aparecesse na minha frente. Acertei um pinho nos córneos de um guri. Depois metralhei o Jaime com tudo que estava na minha mão. Estava me achando o Rambo fuzilando o próprio Saddam Husseim. Túlio veio dando cobertura. Jaime fugiu correndo, chorando. O ataque suicida virou a guerra a nosso favor. A guerra só terminou quando mergulhamos no Poço da Coruja. Não sei quem venceu, acho que esquecemos da guerra. Se parar e pensar é um modo bonito de acabar a guerra, esquecendo.

De noite jantava sempre perto da Ana. Todo machucado da guerra, arranhões e a pele manchada de roxa e amarela. Queria que ela me visse como o seu bravo fuzileiro e cuidasse de mim, mas nem olhava. Às vezes me olhava e ria. Jaime estava magoado por ser metralhado de pinho, tanto que nem queria falar comigo.

Lino era porco em pé. E meu pai não ficava muito atrás. Ele vinha até a Ana e pedia para ela puxar o dedo dele. Uma puxadinha e se peidava. E para completar a seresta papai completa com mais um longo pum na nossa cara. Jaime se anima com o cheio de enxofre e peidava também. Qualquer romantismo que um fuzileiro poderia ter com sua donzela nessas circunstâncias era improvável.

Mas nem tudo eram peidos e puns. Lembro que papai trepava numa mangueira e ficava lá de cima jogando os frutos para que pegasse. Eu era tão pequeno e com mãos tão pequenas que conseguia pegar poucas mangas. Muitas caiam no chão e outras batiam na minha cara. “Machucou?”, perguntava papai. Respondia esfregando a mão no nariz. Enquanto ele se aventurava feito um macaco, eu segurava uma pedra. Não sei porque segurava uma pedra. Tinha um Chevrolet preto próximo e o farol começou a falar comigo. “Ei garoto, joga essa pedra em mim! Joga essa pedra…”. OK, você pediu. CRASH! PÁ! POU! “O quê foi isso?”, perguntava meu pai. Nada, só joguei uma pedra nesse carro. “O QUÊ FOI ISSO?!”, ele caiu feito uma meteoro no chão.

Quando viu o farol todo despedaçado ele me fulminou com os olhos vermelhos. Nem adiantava dizer que foi o farol que pediu. Papai não respirava, bufava. Ele não gritava, trovejava. Quase fiz pipi nas calças de tanto medo. As palmadas eram certeiras, bem nas pernas. Nem adiantava pular que ia girar como uma hélice no ar. Apanhei tanto que fiquei quatro dias mancando. Depois era tão difícil abraçar e dizer te amo papai.

Apanhei inúmeras vezes. Geralmente tinha motivo. Aprontava mesmo. Algumas por causa do Jaime, eu provocava ele… uma vez meu pai me pegou colando meleca na cabeça dele. O restante era para aprender a não jogar estrume nas barracas e quebrar janelas. Tinha tendências sinistras…

(…)

R. Velasquez

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férias acampando, traumas e outras delícias [parte I de IV]

Nas férias quase sempre íamos acampar. Papai dizia que acampamento deixava mais próximo da natureza, do ar puro, mas a verdade é que não tínhamos dinheiro para pagar um hotel ou uma pousada. A única vez que nós fomos a um hotel pagamos com a sorte no bingo. Acampar não tem conforto algum, mas acabava sendo sempre divertido mesmo com um pouco de trauma.

Minha irmã ia logo se enturmando com as outras crianças assim que chegávamos ao camping. Ela fazia amizade com uma facilidade impressionante. Onde chega todo mundo gosta dela. Minha mãe tentava me estimular para conversar com os outros meninos, mas eu preferiria ficar ouvindo minhas fitas de rock n’ roll ou brincando de construir barragens com pinhos. Fazia num riacho que cortava o camping. Davam trabalho erguer, no entanto ficavam muito bem feitas. Depois que o nível da água subia puxava o pinho de baixo para ver tudo desmoronar. E algumas vezes levava um livro, se lia vinte páginas era muito. Meu negócio era pular no rio e fazer trilhas. Explorações.

Ficava completamente doido com o Poço das Esmeraldas. Para chegar nele, era necessário descer uns quinze minutos de trilha. Chegando lá em baixo, o rio faz um poço que de fato era da cor de esmeralda. Um pequeno paraíso. Mergulhava. Ia até o fundo, segurava a respiração e depois voltava à tona. Mas eu ficava apenas ali, explorava rio acima ou rio abaixo pulando de pedra em pedra em busca de novos poços. Eu me sentia um total nativo. Um selvagem.

Certa vez estava descendo o rio e pisei numa pedra escorregadia. PLAT! Cai de costas na pedra. Senti uma dor imensurável. Só via o céu. Pouco a pouco o rio foi levando meu corpo. Dei uma risada, não sei porque. E minha irmã surge numa pedra bem lá no alto e gritando “Meu irmão!”, pondo as mãos na cabeça. Boa coisa não era. E cai a primeira cascada. Me arrebentei inteiro. O rio ainda estava raso e continuava me carregando. Não conseguia me mover. “Meu irmão! Meu irmão”, gritava ela para seus amigos como se assistisse meus últimos minutos de vida. E lá ia eu caindo rio abaixo. Os seixos batiam na minha costela. Outras pedras me arranhavam a pele. “Meu irmão! Meu irmão!”, ela só dizia isso e eu me fodia todo lá em baixo.

Cai uma última vez e o rio já estava mais fundo. Minha irmã e os seus amigos estavam correndo para me socorrer. Quando dei o primeiro sinal de vida todos desistiram. Estraguei a alegria deles. Eu estava todo arranhado e com o corpo muito dolorido. Passei boiando por um casal que trepava. Contei o que aconteceu comigo e eles pouco se importaram. Nadei até a margem e me escorei numa pedra qualquer. Doía tudo. Tentei descansar um pouco. Como o corpo estava congelado até os ossos do rio nem notei que o sol me queimava. Subi de volta dolorido e ainda por cima torrado. Definitivamente não devia ter saído da barraca aquele dia.

Papai sempre gostou de trabalhar. Até nas suas férias trabalhava. Ficava horas cavando trincheiras em volta da barraca para que a água da chuva não encharcasse. E ainda armava toldos mirabolantes. Não queria ir para um hotel, mas queria comodidade. Mas todo esse trabalho não impedia que algumas vezes dormíssemos todos molhado, batendo os dentes dentro da barraca. No dia seguinte não sossegava até encontrar o jeito certo de resolver as coisas. E nem adiantava ajudar ou dá palpite, ninguém sabia o que se passa na cabeça dele. Apenas dava ordens “Rafael, segura isso aqui… não! Assim!… Isso segura!… PORRA NÃO SOLTA!”.

Colocávamos uns colchões finos para disfarçar os galhos e as pedras que cutucavam a coluna a noite inteira. Além disso, meu pai acendia o lampião convidando todos os insetos as se aproximarem. Passávamos a noite bofeteando o rosto tentando matar os mosquitos que além de sugarem nosso sangue inteiro ainda zuniam no ouvido. Você não dorme, se rende ao cansaço.

A comida do acampamento era quase sempre churrasco. É carne de todo os jeitos, bem-passada… mal-passa… torrada… tostada… Além da galinha mutilada. Para acompanhar arroz e vinagrete… Quando se faz churrasco nunca se fazia uma família, sempre tinha mais gente, freqüentemente para dividir as despesas da carne e do carvão. E lá ia eu torcendo a cara para o vinagrete, aquilo me dava ânsia de vômito. Meu prato era carne e arroz. O arroz ficava vermelho por causa do sangue que ainda escorria da carne. Além disso, eu tinha que encarar todas as brincadeiras durante o churrasco. Os adultos sempre mexiam comigo, talvez pensassem que eu era retardado.

Tinha terríveis problemas intestinais. Cagar era uma tortura. Chegava a delirar e acabava vomitando. Só percebi que o problema estava na carne muito tempo depois quando me tornei vegetariano. Os banheiros de acampamento eram todos horríveis, imundos. Tinha insetos enormes e em uma variedade assombrosa. O pavor de um inseto entrar na minha bunda e devorar minhas entranhas me fazia suar em bicas. E como acampávamos mais de uma semana ou eu cagava ali mesmo ou a merda se acumularia na minha barriga até explodir. Minha mãe ficava intrigada de como uma bundinha tão pequena como a minha podia fazer tanto cocô. Minha avó chama de “Sputnik”, uma gentil homenagem ao satélite.

Ficava uns dias sem ir ao banheiro e no meio da trilha a vontade vinha. Ainda bem que estava sempre sozinho e cagava dentro da sunga. Corria para o banheiro e tentava acertar a bosta no vaso. Uma vez explorando o rio e me bateu uma vontade horrorosa. Pulei na água e me agarrei na pedra. A merda foi embora na correnteza e nem deu tempo de dizer adeus. Pensei nas pessoas que estavam se banhando no poço de baixo. Ri um bocado.

Geralmente meus pais convidavam um casal de amigos para acampar junto. Lino era amigo de papai do tempo de faculdade. A Rúbia era a mulher maluca com que ele se casou. A filha mais velha era Ana. Todo mundo a chamava só de Ana, até eu. Nunca soube se era Ana Beatriz, Ana Carolina, Ana Maria ou Ana Alguma Outra Coisa. Mais velha que eu. Era bonita e tinha um corpo bem torneado. Uma coisa. Bati muita punheta escondido bisbilhotando ela. Além dela, tinha o Jaime que é quase da minha idade. Tinha uma voz irritante e quanto dava queria ver meu pau. Sempre brincávamos juntos, mas sempre que podia tentava me livrar dele, principalmente para bisbilhotar a sua irmã.

Quando íamos para algum poço Jaime dava pouca ou nenhuma atenção para as meninas e mulheres bonitas ali se banhavam. Não sei se ele era esquisito mesmo ou se eu era um pervertido incorrigível. Nem havia dado meu primeiro beijo e já queria copular feito um cachorro doido. O lance dele era joga ping-pong, correr, soltar pipa e ver meu pau. Desagradável. Mijava na trilha e virava para mim “olha aqui… to fazendo xixi!” só para mostra a merequinha de piroca. Sentia vergonha das pessoas que Deus punha na minha vida.

Numa janta a Rúbia havia feito camarões. Estávamos na serra e não sei de onde eles arrumaram aqueles camarões. Deviam estar podres. Não gostava e nem fazia questão de comer, ficava mordiscando outros salgados. Sentava perto da Ana para contemplar suas pernas. Eram firmes, redondas… lisinhas… Era pau de dar em doido. A mãe dela notava que eu ficava devorando a filha dela com os olhos tanto que uns dias depois a escudei falando com mamãe que achava que eu ia pegar em namoro com a filha dela. Isso nunca aconteceu, que lástima! Cada salgadinho que comia olha para ela e disfarçava. A Rúbia veio até mim “você não vai comer camarão?”. Não, não gosto. “Prova!”. Torci o nariz. “Sabe que gosto camarão tem?”. Não faço nem idéia. Ela chega bem perto do meu ouvido e sem pudor nenhum solta: “de BOCETA!”. Acho que escorreu sangue do nariz. Olhei para filha dela e coloquei dois camarões na boca. A cada mordida uma careta.

(…)

R. Velasquez

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